O Brasil e a Globalização da Ciência

A cada dia, a pesquisa científica se torna cada vez mais global. Mas, até que ponto os resultados e a própria Ciência alcançam uma amplitude global? De que modo a Ciência produzida por autores de um determinado país, região ou disciplina alcança, de fato, um nível global? 

Publicar em periódicos globais e não em revistas locais pode afetar esse alcance?  

Pensando nisso, dois economistas – Vít Macháček e Martin Srholecdo Instituto de Democracia e Análise Econômica (IDEA) do Centro de Pesquisa Econômica e Instituto de Educação de Pós-Graduação e Economia de Praga, República Tcheca – realizaram um amplo estudo, concluído em maio de 2019 e intitulado Globalization of Science: Evidence from Authors in Academic Journals by Country of Origin [1].

Eles analisaram 22 milhões de artigos indexados pela base de dados Scopus entre 2005 e 2017, de autores de 174 países. O estudo é baseado em seis indicadores de globalização em nível de periódico. Os indicadores de referência são derivados dos dados dos autores pelo país de origem. Para comparação, também foram utilizados  dados de documentos por país de origem e documentos escritos em inglês.

Os resultados revelam que países ocidentais, como Estados Unidos (EUA) e nações da União Européia (UE), lideram a classificação de Globalização da Ciência, com os mais altos índices – acima de 0,7. O número permanece bastante estável desde 2005.

Os EUA e a UE são seguidos por países como Japão, Brasil e Índia, com notas de 0,66, 0,61 e 0,60, respectivamente. Em 2006, a China era o país menos globalizado, mas em 2015 alcançou o Brasil e a Índia. Em relação ao padrão global da ciência transfronteiriça, a Rússia está atrasada [2]. Embora utilizem o idioma inglês, os pesquisadores baseados na Rússia publicam uma porcentagem maior de artigos em revistas locais do que em publicações internacionais.

O Mapa a seguir apresenta em cores o índice de Globalização da Ciência por países. Quanto mais intensa a cor, mais distante da globalização se encontra a produção científica do país (Figura 1).

Figura 1 – Globalização da Ciência – Mapa geral (2017)

Metodologia do estudo

A fonte de dados utilizada foi a Base de citações ScopusA lista de periódicos e disciplinas pode ser obtida na Lista de fontes Scopus

A análise calculou um índice de globalização da pesquisa para 174 países, com base na extensão em que os pesquisadores de cada país publicaram em periódicos internacionais em comparação com os periódicos publicados em seu próprio país.

Quanto mais os autores de um país publicam em periódicos altamente globalizados, maior o índice do país em uma escala de zero a um. Padronizados entre 0 e 1, o 0 refere-se à menor globalização e 1 à maior globalização.

Segundo os próprios autores, a metodologia baseia-se no trabalho pioneiro de Zitt e Bassecoulard (1998) , complementado com as contribuições de Buela-Casal et al. (2006) , Aman (2016) e dois indicadores próprios. 

Em síntese, os periódicos mais globalizados possuem uma estrutura (de documentos pelo país de origem dos autores, etc.) que se assemelha à estrutura global de alcance das disciplinas e vice-versa. Somente revistas com pelo menos 30 documentos em um determinado ano foram incluídas no cálculo. 

As revistas foram classificadas por disciplina a partir da Scopus Journal Classification, em quatro grupos de assuntos gerais: (1) Ciências da Vida (Life Sciences), (2) Ciências Físicas (Physical Sciences), (3) Ciências da Saúde (Health Sciences), (4) Ciências Sociais (Social Sciences), subdivididos em 27 áreas principais, tais como: Ciências Agrárias e Biológicas, Bioquímica, Genética e Biologia Molecular, Energia, Engenharia, Farmácia, entre outras. 

Para consultar os resultados, os autores criaram um aplicativo (app) que filtra os países e disciplinas, e que se encontra disponível no link: http://globalizationofscience.com/

Por meio do aplicativo, pode-se comparar: países dentro de uma disciplina, ou disciplinas dentro de um país. Também é possível realizar comparações a partir de grupos de países. Até 10 itens podem ser incluídos na comparação.

A Globalização da Produção Científica do Brasil

O estudo revelou que pesquisadores baseados no Brasil publicam uma porcentagem maior de artigos em revistas internacionais do que em publicações locais, considerando o universo de todas as disciplinas. O índice do Brasil (0,61) apresentou ligeira elevação ao longo do período de 2005 e 2017, permaneceu um pouco abaixo do índice mundial, que ficou em 0,68. Em comparação com países como o Reino Unido (0,74), Estados Unidos (0,71) e Japão (0,66), o Brasil ocupa o 4º lugar entre os países selecionados nessa amostra, ultrapassando a Russia (0,38) e diversos outros países no cômputo geral – Figura 2. 

Figura 2 – Evolução comparativa de todas as Disciplinas entre países selecionados (2005-2017)

Em algumas disciplinas específicas, o Brasil apresenta índices melhores, ocupando a primeira posição. É o caso de disciplinas como Engenharia Química (0,84), Energia (0,90) e Matemática (0,82) – Figuras 3, 4 e 5, a seguir.

Figura 3 – Evolução comparativa da área de Engenharia Química entre países selecionados (2005-2017)
Figura 4 – Evolução comparativa da área de Energia entre países selecionados (2005-2017)
Figura 5 – Evolução comparativa da área de Matemática entre países selecionados (2005-2017)

Ainda segundo os resultados do estudo, o mais baixo índice do Brasil foi atribuído à área de Veterinária, que ficou em 0,44 (Figura 6).

Figura 6 – Evolução comparativa da área de Veterinária entre países selecionados (2005-2017)

Considerações Finais

Os autores do estudo esclarecem que a globalização da ciência não deve ser confundida com a qualidade (ou relevância) da ciência; é provável que tais elementos estejam relacionados de diversas maneiras, dependendo da disciplina, mas são fenômenos diferentes.

Na opinião do bibliométrico Nees Jan van Eck, da Universidade de Leiden, na Holanda , ainda que o estudo seja  relevante, que a abordagem utilizada no estudo pode fornecer uma perspectiva estreita da globalização e pode ser distorcida pelo fato de que, embora a Base Scopus cubra a maioria dos periódicos internacionais, o alcance em revistas regionais e locais é limitado [2].

Do ponto de vista de van Eck, globalização é estabelecer parcerias globais de colaboração (refletidas por publicações com coautores em todo o mundo) e disseminação global de conhecimento (refletida por citações que fluem globalmente entre países). “Isso é bem diferente da perspectiva adotada pelos autores, que se baseia na ideia de primeiro estabelecer o nível de globalização de periódicos individuais e depois derivar o nível de globalização de um país do nível de globalização dos periódicos em que o país publicou. ” [3].

Isso posto, conclui-se que são necessárias mais pesquisas para entender melhor a globalização da ciência, mas a escolha do periódico certo para publicação pode fazer uma grande diferença. 

== Referências e Notas ==

[1] Macháček, Vít; Srholec, Martin. Globalization of Science: Evidence from Authors in Academic Journals by Country of Origin. Disponível em: http://globalizationofscience.com/ Acesso em: 10 out. 2019.

[2] Chawla, Dalmeet Singh. Russian science stays at home: Out of step with international norms. Nature INDEX Blog, 10 October 2019. Disponível em: https://www.natureindex.com/news-blog/russian-science-stays-at-home Acesso em: 10 out. 2019.

[3] Em 2011, van Eck relatou que a distância média de colaboração física aumentou de 334 quilômetros em 1980 para 1.553 km em 2009. Fonte: Nature Index Blog

Como citar este post [ABNT/NBR 6023/2018]:

DUDZIAK, Elisabeth A. O Brasil e a Globalização da Ciência. Disponível em: https://www.sibi.usp.br/?p=41104 Acesso em: DD mês. AAAA

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