Princípios TOP para revistas e bibliotecas: promoção da transparência e abertura da ciência

Em 2015, quando Liz Lyon, professora na Universidade de Pittsburg, Estados Unidos, apresentou o trabalho intitulado Transparency: the emerging third dimension of Open Science and Open Data [1] na 44ª Conferência Anual LIBER em Londres, os princípios TOP tinham acabado de ser publicados e ainda não eram adotados por muitos editores e organizações científicas, menos ainda por bibliotecas. Porém, aos poucos, o tema foi se tornando mais popular e hoje atrai cada vez mais adeptos.

As Diretrizes de Transparência e Promoção da Abertura (em inglês TOP – Transparency and Openness Promotion) foram criadas por e para periódicos, financiadores e sociedades científicas para alinhar os ideais científicos às práticas reais de publicação científica e gestão de dados de pesquisa. Revistas e Editoras (Publishers) como Elsevier, Emerald, Springer-Nature, Wiley e Associações como American Geophysical Union, BioMed Central, Committee on Publication Ethics (COPE) e DataONE endossam as diretrizes TOP. A lista de organizações signatárias aumenta a cada dia. 

O TOP diz respeito à transparência dentro do processo de pesquisa e publicação científica, e permeia elementos como reprodutibilidade, integridade e ciência aberta. Nesse sentido, este artigo interessa tanto a editores de revistas quanto gestores de bibliotecas universitárias de pesquisa.

Transparência e Ciência Aberta

Diversas organizações internacionais têm se referido à Ciência Aberta (Open Science). O Relatório da Royal Society de 2012 [2] faz referência a “políticas transparentes de custódia, qualidade de dados e acesso” ao delinear um conjunto de princípios que devem ser compartilhados pelos custodiantes do trabalho científico em direção à abertura da ciência. No Reino Unido, os Conselhos de Pesquisa [3] publicaram um conjunto de Princípios Comuns sobre Política de Dados que afirmam: “Disponibilizar dados de pesquisa aos usuários é uma parte central da missão e dos Conselhos de Pesquisa”. A Comissão Européia [4] está monitorando as atividades relacionadas à Ciência Aberta. A FOSTER [5] é uma entidade dedicada à promoção da ciência aberta e seus princípios. A Organisation for Economic Co-operation and Development (OCDE) [6] promove a ciência aberta, ressaltando a importância do aumento da transparência e da qualidade no processo de validação da pesquisa.  

A transparência está no centro da Ciência Aberta. Como movimento para tornar a pesquisa científica, os dados e a divulgação da ciência acessíveis a todos, a Ciência Aberta é cada vez mais valorizada e reúne ações relacionadas ao acesso aberto (open access), código aberto (open source), recursos educacionais abertos (open educational resources), dados abertos (open data), revisão por pares aberta (open peer review) e metodologia aberta (open methodology). 

Princípios e Diretrizes TOP
As diretrizes TOP foram publicadas na revista Science em 2015, por meio do artigo Promoting an open research culture [7], fruto de um workshop realizado em novembro de 2014.  Incluem oito (8) padrões modulares, cada um com três níveis (Nível 1, Nível 2 e Nível 3) de rigor crescente. Os periódicos selecionam quais dos oito padrões de transparência desejam adotar para seu periódico e selecionam um nível de implementação para cada padrão [1], [2]. Esses recursos fornecem flexibilidade para adoção, dependendo da variação disciplinar, mas ao mesmo tempo estabelecem padrões da comunidade. Atualizações para padrões são registradas com número de versão e data. A adoção de periódicos e financiadores pode indicar o número da versão que eles adotam para facilitar o rastreamento e a atualização dos padrões ao longo do tempo.

  • 1 Citation Standards Padronização de Citação – A citação de artigos é rotineira e bem formulada. Padrões semelhantes podem ser aplicados à citação de dados, códigos e materiais para reconhecê-los e creditá-los como contribuições intelectuais originais. O nível 1 recomenda os padrões de citação, o nível 2 exige a adesão aos padrões de citação e o nível 3 exige e reforça a adesão aos padrões de citação.
  • 2, 3, 4 Data, Analytic Methods (Code), and Research Materials Transparency Transparência de Materiais de Pesquisa, Métodos Analíticos (Código) e Dados – orientações de transparência para dados, métodos analíticos e materiais de pesquisa são conceitualmente distintas. Eles são apresentados juntos, pois os princípios do processo são semelhantes para cada um. No entanto, uma revista poderia adotar diferentes níveis para cada um, com pequenas modificações dos modelos. Para o Nível 1, o artigo publicado indica se os dados, o código e os materiais estão disponíveis e, se disponíveis, como acessar. Para o Nível 2, dados, códigos e materiais devem ser postados em um repositório confiável e exceções ao compartilhamento identificados na submissão do artigo. O nível 3 adiciona verificação independente de análises reportadas ao nível 2.
  • 5 Design and Analysis Transparency – Transparência de Análise e Desenho da Pesquisa – padrões para relatar o desenho e a análise da pesquisa devem maximizar a transparência sobre o processo de pesquisa e minimizar o potencial para relatos vagos ou incompletos da metodologia. Os padrões de dados, métodos analíticos e materiais de pesquisa acima fornecem diretrizes gerais para disponibilizar esse material. Padrões para a elaboração de relatórios de projetos de pesquisa são altamente específicos da disciplina. Assim, incentiva-se os periódicos a incorporar padrões existentes que se aplicam a domínios específicos. Para auxiliar na implementação, o ideal é fornecer orientações e formulários fornecendo detalhes sobre como essas informações devem constar das publicações. Os autores começam identificando o tipo de desenho do estudo e, portanto, o formulário apropriado para enviar. Os autores documentam a conformidade copiando e colando as passagens relevantes no artigo que abordam a questão no formulário. Por exemplo, ao indicar como o tamanho da amostra foi determinado, os autores copiam e colam no formulário o texto no artigo que descreve como o tamanho da amostra foi determinado. 
  • 6 Preregistration of Studies – Pré-Registro de Estudos – O pré-registro de estudos é um meio de tornar a pesquisa mais detectável, mesmo que não seja publicada. Ao incentivar ou exigir o pré-registro, os periódicos aumentam a probabilidade de descoberta de pesquisas que não são publicadas em última instância. Para o Nível 1, os periódicos incentivam o pré-registro e exigem links no texto para pré-registros de estudos, caso existam. Para o Nível 2, os periódicos verificam se o pré-registro segue os padrões e indica a certificação para atender a esses padrões. Além das diretrizes do Nível 2, o Nível 3 exige que todos os estudos relatados tenham sido pré-registrados.
  • 7 Preregistration of Analysis Plans – Pré-Registro de Planos de Análise – O pré-registro de planos de análise pode substituir o pré-registro de estudos acima. Para o Nível 1, os periódicos incentivam o pré-registro com planos de análise e exigem links em texto para pré-registros, caso existam. Para o Nível 2, os periódicos verificam se o pré-registro segue os padrões e indica a certificação para atender a esses padrões. Além das diretrizes do Nível 2, o Nível 3 exige que todos os estudos relatados tenham sido pré-registrados. Isso pode incluir relatórios registrados como uma opção de envio para revisão por pares pré-registrada.
  • 8 Replication – Replicação – Os padrões de transparência acima explicam a reprodutibilidade dos resultados relatados com base nos dados de origem e o compartilhamento de informações suficientes para conduzir uma replicação independente. Embora não seja formalmente um padrão de transparência para os autores, esta seção trata das diretrizes da revista para a consideração de replicações independentes para publicação. O nível 1 incentiva a submissão de estudos de replicação. Nível 2 conduz resultados de revisão cega de estudos de replicação. O Nível 3 usa os Relatórios Registrados como uma opção de submissão para replicações para obter revisão por pares antes de observar os resultados do estudo.

Exigir práticas de pesquisa mais transparentes, com exceções razoáveis ​​para situações difíceis, é possível. Esse conjunto de padrões requer dados abertos, materiais de pesquisa e código analítico, enquanto incentiva a divulgação de etapas adicionais que podem aumentar a credibilidade da pesquisa. 

O TOP Guidelines Committee, patrocinado pelo Center for Open Science, mantém informações comuns sobre padrões de transparência, serve como um grupo consultivo para periódicos e financiadores, avalia a eficácia das diretrizes e gerencia a atualização de diretrizes para maximizar a qualidade e aplicabilidade interdisciplinar.

Ciência Aberta e Transparência em Bibliotecas

Em um contexto global e nacional, pode-se afirmar que o princípio da transparência é hoje direito do cidadão como requisito associado ao acesso à informação nas diversas instâncias governamentais e públicas, e está cada vez mais presente nas organizações de pesquisa, órgãos de apoio à pesquisa, associações e editores.

Organizações bibliotecárias também têm se envolvido com as questões da transparência, acesso aberto e ciência aberta. O Manifesto da IFLA sobre transparência, bom governo e ausência de corrupção [8] destaca a importância da transparência como base do bom governo e o primeiro passo no combate à corrupção.

A IFLA afirma que as bibliotecas são em sua verdadeira essência instituições
transparente, dedicadas a colocar à disposição de cada um e de todos as informações
educacionais, científicas, técnicas e socialmente mais relevantes, mais
acuradas e imparciais (IFLA, 2017).

De acordo com Farrell [9], o exercício da liderança na transparência é papel dos gestores de bibliotecas. Segundo Liz Lyon [1], o envolvimento das bibliotecas com metas de transparência requer atuar em quatro frentes: (1) liderança e políticas, (2) defesa e treinamento, (3) infra-estrutura de pesquisa e (4) desenvolvimento da força de trabalho. As bibliotecas universitárias exercem um papel fundamental no engajamento e contribuição nos diferentes estágios do ciclo de vida da pesquisa e também na formação de futuros profissionais. 

Como marco nessa visão de promoção da ciência aberta e princípios TOP nas bibliotecas, destacamos a matéria publicada na STM Publishing News (Junho 2015), que destaca o compromisso da Association of Research Libraries (ARL) de apoio aos princípios TOP por ocasião da publicação do artigo na revista Science. Na época, o diretor executivo da ARL, Elliott Shore, afirmou “Maior transparência na pesquisa e publicação ajudará as instituições de pesquisa a cumprir sua missão de criar conhecimento como um bem público. As Diretrizes TOP irão melhorar e fortalecer os padrões da comunidade e permitir que as bibliotecas de pesquisa forneçam os serviços necessários e a infraestrutura para apoiar a bolsa aberta.”[10]. 

A Declaração de junho de 2016 publicada pela IFLA [11], EBLIDA [12] e LIBER [13] intitulada Be Open to Open Science: Stakeholders Should Prepare for the Future, not Cling to the Past é outro documento que reforça a importância da atuação das bibliotecas na promoção do acesso aberto, ciência aberta e princípios da transparência na comunicação científica. 

Nesse contexto, evidencia-se a importância da atuação conjunta das bibliotecas junto aos alunos, docentes, pesquisadores em parceria com órgãos de pesquisa – Comissões e Pró-Reitorias – na elaboração de políticas institucionais e procedimentos que apliquem os princípios TOPAo gerenciar sistemas de informação e de pesquisa, coordenar Portais de Revistas, Repositórios e Bibliotecas Digitais, as bibliotecas podem adotar alguns dos princípios TOP em diversas instâncias. 

Os pesquisadores e editores devem ser incentivados a consultar a documentação do TOP sempre, para que decidam adotar algumas ou todas as Diretrizes TOP. Os docentes podem pensar em adotar os princípios TOP nas tarefas dos alunos. A escolha de revistas que adotam os princípios TOP para publicar já é, em si, um bom começo. As bibliotecas podem promover os princípios TOP por meio de suas atividades de apoio à pesquisa e aos pesquisadores. Precisamos acompanhar as expectativas de mudança na comunicação científica e na atuação das bibliotecas.

== Referências ==

[1] LYON, L. Transparency: the emerging third dimension of Open Science and Open Data. LIBER Quarterly, v. 25, n.4, p. 153–171, 2016. DOI:http://doi.org/10.18352/lq.10113

[2] ROYAL SOCIETY. Science as an open enterprise: open data for open science. (Royal Society Report 2012). Disponível em: < https://royalsociety.org/˜/media/Royal_Society_Content/policy/projects/sape/2012-06-20-SAOE.pdf> Acesso em 14 June 2018.

[3] RESEARCH COUNCILS. RCUK Common Principles on Data Policy. Disponível em:<https://www.ukri.org/funding/information-for-award-holders/data-policy/common-principles-on-data-policy/> Acesso em 15 Jun. 2018.

[4] EUROPEAN COMMISSION. Monitoring Open Science. Disponível em:<https://ec.europa.eu/info/research-and-innovation/strategy/goals-research-and-innovation-policy/open-science/open-science-monitor_en> Acesso em 15 Jun. 2018.

[5] FOSTER. What is Open Science?. Disponível em: <https://www.fosteropenscience.eu/content/what-open-science-introduction> Acesso em 15 Jun. 2018. 

[6] OECD. Open Science. Disponível em: <http://www.oecd.org/sti/inno/open-science.htm> Acesso em: 15 Jun. 2018.

[7] NOSEK, B.A. et al. Promoting an open research culture. Science, v.348, n.6242, p.1422-1425. DOI: http://doi.org/10.1126/science.aab2374

[8] INTERNATIONAL FEDERATION OF LIBRARY ASSOCIATION (IFLA). Manifesto da IFLA sobre transparência, bom governo e combate à corrupção. Jan. 2017. Disponível em:<https://www.ifla.org/files/assets/faife/publications/policy-documents/transparency-manifesto-pt.pdf> Acesso em: 15 Jun. 2018.

[9] FARREL, M. Leadership reflextions: transparency. Journal of Library Administration, v. 56, p.444–452, 2016. Disponível em: <https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/01930826.2016.1157426>

[10] ASSOCIATION OF RESEARCH LIBRARIES (ARL). Association of Research Libraries expresses support for principles of transparency and openness. STMPublishing News, 29 June 2015. Disponível em:<http://www.stm-publishing.com/association-of-research-libraries-expresses-support-for-principles-of-transparency-and-openness/> Acesso em: 15 Jun. 2018. 

[11] IFLA. INTERNATIONAL FEDERATION OF LIBRARY ASSOCIATION. Be Open to Open Science – Libraries Call on All Stakeholders to Play a Constructive Role. IFLA, June 2016. Disponível em: <https://www.ifla.org/node/10516> Acesso em: Jun. 2018.  

[12] EBLIDA. Why we need transparency. Disponível em:<http://eblida.tumblr.com/post/165616630711/why-we-need-transparency> Acesso em: 15 Jun. 2018. 

[13] LIBER. Innovative Scholarly Communications: Strategic Directions in our 2018-2022 Strategy. Disponível em: <https://libereurope.eu/strategy/innovative-scholarly-communication/> Acesso em: 15 Jun. 2018. 

== Leitura Complementar ==

CENTER FOR OPEN SCIENCE. TOP Guidelines Appendix: Full-text of each level of each transparency standard

CENTER FOR OPEN SCIENCE. TOP Guidelines Sample Implementations of the TOP Guidelines (v 1.0.1)

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Como citar este post [ABNT/NBR 6023/2002]:

DUDZIAK, E.APrincípios TOP para revistas e bibliotecas: promoção da transparência e abertura da ciência. Junho 2018. Disponível em: <http://www.sibi.usp.br/?p=23896> Acesso em: DD mês. AAAA.