Polêmica PLOS expõe intolerância ao acesso aberto

SIBiUSP 2016

Por Sibele de Fausto

Na última semana assistimos a uma grande polêmica envolvendo o artigo “Biomechanical Characteristics of Hand Coordination in Grasping Activities of Daily Living” (“Características Biomecânicas da coordenação da mão em atividades de agarramento na vida diária”, em livre tradução), de autoria de Ming-Jin Liu, Cai-Hua Xiong , Le Xiong, e Xiao-Lin Huang,  os dois primeiros (incluindo o autor principal, Cai-Hua Xiong) afiliados ao Institute of Rehabilitation and Medical Robotics, State Key Lab of Digital Manufacturing Equipment and Technology da Universidade  Huazhong de Ciência e Tecnologia (Huazhong University of Science and Technology),  de Wuhan, China;  o terceiro autor ao Tongji Hospital, do Tongji Medical College da mesma Huazhong University of Science and Technology, e o último autor ligado ao Foisie School of Business do Worcester Polytechnic Institute, em Worcester, Massachusetts, EUA.

Post-retratação-PLOS-One -Criação

Tal artigo foi publicado na prestigiada revista PLOS ONE no dia 5 de janeiro último, e menos de 2 meses depois, na última quinta-feira  03 de março de 2016, foi retratado. O link do artigo mostra o comunicado da revista justificando essa retratação:

Os editores da PLoS ONE acompanharam as preocupações levantadas sobre esta publicação . Concluímos uma avaliação da história dessa submissão e recebemos orientação de dois especialistas de nosso conselho editorial. A nossa revisão interna e as orientações que recebemos confirmaram as preocupações sobre o artigo e revelaram que o processo de revisão por pares não avaliou adequadamente diversos aspectos do trabalho.

À luz dos problemas identificados, os editores da PLOS ONE decidiram retirar o artigo, a retratação está sendo processada e será publicada logo que possível. Pedimos desculpas pelos erros e lapsos que levaram à publicação deste artigo. Nenhum conflito de interesse declarado.a

A revista recebeu uma enxurrada de reações negativas que a levou a decidir pela retratação, desde comentários no próprio espaço do artigo (até a publicação deste post já se somavam 18 comentários ali), como nas mídias sociais (Twitter, Facebook – adotando as hashtags #handofgod e #creatorgate), em blogs e até mesmo em revistas como a Nature [2] e a Wired [3]

Mas qual foi o problema com esse artigo?

Segundo o site Retraction Watch [4], a linguagem empregada no artigo sugere que a extraordinária habilidade manual humana deve-se a um design divino – fazendo com que a comunidade científica se enfurecesse com a revista por aceitar um artigo com o discurso criacionista do Design Inteligente (DI), tido como pseudocientífico e sem bases em evidências comprovadas, e inaceitável no meio científico acadêmico sério. Foram tantos os ataques que a revista acabou por retratar o artigo. Mas houve quem, como o prestigiado blogueiro de ciências P. Z. Myers, percebesse até certa intolerância por parte dos cientistas para uma questão que nem seria de retratação, mas de correções no artigo [5]. 

Independentemente da celeuma científica sobre o DI, o que nos chamou a atenção foi o exagero dos ataques a ponto de extrapolar para a culpabilização do acesso aberto, com insinuações de que os artigos em acesso aberto não são bem revisados por pares.

PLOS_ONE_logoComo todos sabem, a revista PLOS ONE é uma publicação em acesso aberto da coleção PLOS editorial (acrônimo para Public Library of Sciencehttp://www.plos.org). A PLOS é pioneira, juntamente com a BioMed Central (BMC) em alternativas de modelos de publicação de artigos, em reação à chamada crise dos periódicos científicos verificada a partir da metade da década de 1990, quando surgem movimentos em favor do acesso aberto ao conhecimento científico, em repúdio  às revistas científicas que restringiam o acesso aos textos completos dos artigos a dispendiosas assinaturas. Tanto a PLOS como a BioMed Central inovaram apresentando um novo modelo de financiamento de revistas que garantisse o acesso livre aos artigos, com o pagamento dos custos editoriais pelos próprios autores, através de uma taxa de publicação (Article Processing Charge – APC).

A partir do início oficial de sua atividade publicadora com o lançamento da revista PLOS Biology em outubro de 2003, a PLOS expande-se lançando novos títulos em sequência, e hoje sua coleção compreende oito (8) revistas: além da pioneira PLOS Biology, a PLOS Medicine (lançada em 2004); a PLOS Computational Biology, a PLOS Genetics e a PLOS Pathogens (lançadas em 2005); a PLOS ONE (em 2006); a PLOS Neglected Tropical Diseases – PLOS NTD (em 2007) e a PLOS Currents (em 2009). Todas as revistas PLOS são revisadas por pares e em acesso aberto, adotando diferentes taxas de APCs. A PLOS se declara uma organização sem fins lucrativos (non-profit), seguindo um modelo de negócio que compensa os custos de publicação, incluindo os de gestão da revisão por pares, da produção das revistas e da hospedagem on-line e arquivamento.

Mas há mais. Lembremos que as profundas transformações experimentadas pela comunicação científica a partir de meados dos anos 1990, permeadas pelo acesso aberto, por novos dispositivos informacionais, por novos modelos de negócio de publicação, e novas dinâmicas de disseminação e de mediação da informação, em processos sincrônicos e interligados ao desenvolvimento acelerado das tecnologias online, engendraram o terreno propício para os questionamentos relativos à validade das métricas tradicionais sobre a produção científica, até então baseadas no dispositivo informacional do formato revista e em seus indicadores derivados, em especial o Fator de Impacto (FI).

Cresce a noção de que o impacto científico é um construto multidimensional que não pode ser adequadamente medido por apenas um único indicador [6]. Nesse sentido, a PLOS destaca-se também ao focar na unidade básica da comunicação científica – o artigo, considerando uma visão mais abrangente e informativa sobre o desempenho global e o alcance do artigo em si [7]. E a PLOS igualmente inovou na complexa seara da avaliação da produção científica, ao adotar as metrias em nível de artigo (article-level metrics – ALM), considerando medidas alternativas além das tradicionais citações e oferecendo uma gama variada de indicadores de visibilidade e impacto dos artigos publicados em sua coleção.

Nos seus 13 anos de existência as revistas PLOS amealharam respeito e notoriedade no meio científico, sendo consideradas publicações de primeira linha, e muito desse sucesso é atribuído ao acesso aberto das suas revistas. O imbróglio verificado com a publicação desse artigo recém-retratado revelou, porém, que há quem acredite que o acesso aberto pode ter sua parcela de culpa por deixar passar artigos sem fundamentação científica como o que foi retratado, questionando a eficácia da capacidade dos editores de acesso livre em manter a qualidade editorial sem uma receita advinda de assinaturas [8]. Tal questionamento foi levantado pela magnitude das revistas PLOS, que somam 28.000 artigos publicados só no ano passado,  contando com 6.000 membros editoriais e 76.000 colaboradores. Apenas a PLOS ONE, considerada carro-chefe da coleção PLOS e a maior revista do mundo em número de artigos publicados, quadruplicou sua produção anual de pouco menos de 7.000 artigos na época de seu lançamento para cerca de 30.000 por ano atualmente, ou 85 artigos por dia [9].

Esses números, mais o processo de submissão e publicação relativamente rápido das revistas PLOS levantaram a dúvida da qualidade de sua revisão por pares (peer-review) e se valem os valores cobrados por suas APCs . Mas logo houve réplicas apontando que as revistas fechadas também tem altas taxas de retratação, mesmo as mais prestigiadas como a Nature, a Science e a New England Journal of Medicine [10]. O incidente mostrou que o problema não está no acesso aberto, mas na revisão por pares – processo que não sofreu mudanças substanciais em suas características, ao contrário de outros aspectos da publicação científica, impactada pela web  na sua produção e acesso e mesmo na sua avaliação.

O episódio apontou como o sistema de peer-review  está enfrentando dificuldades com o crescente número de artigos publicados, sobrecarregando os editores e os pareceristas. Alternativas foram aventadas, como as das revistas eletrônicas eLifeb e Faculty of 1000 Researchc, que adotam a revisão por pares pós publicação e abertas, respectivamente. A polêmica acendeu um debate positivo que pode fazer as melhorias conquistadas na publicação científica avançarem ainda mais. Curiosamente, os autores do artigo pivô de toda essa polêmica são chineses. Dizem que na China, a palavra “crise” é também sinônimo de oportunidade.

Vamos acompanhar.

Notas

a. No original: “The PLOS ONE editors have followed up on the concerns raised about this publication. We have completed an evaluation of the history of the submission and received advice from two experts in our editorial board. Our internal review and the advice we have received have confirmed the concerns about the article and revealed that the peer review process did not adequately evaluate several aspects of the work.

In light of the concerns identified, the PLOS ONE editors have decided to retract the article, the retraction is being processed and will be posted as soon as possible. We apologize for the errors and oversight leading to the publication of this paper. No competing interests declared.

b. eLife: http://elifesciences.org 

c. Faculty of 1000 Research: http://f1000research.com 

Referências

1. LIU, Ming-Jin; XIONG, Cai-Hua; XIONG, Le; HUANG,  Xiao-Lin. Biomechanical Characteristics of Hand Coordination in Grasping Activities of Daily Living. PLOS ONE, DOI: 10.1371/journal.pone.0146193. Disponível em: <http://journals.plos.org/plosone/article/comment?id=info%3Adoi%2F10.1371%2Fannotation%2F9dd71a4e-84bc-4656-be86-b8f813c4d099>. Acesso em 07 mar. 2016.

2. BASKEN, Paul.  Paper Praising ‘Creator’ Puts Fear of God in Open-Access Giant.  The Chronicle of Higher Education, March 07, 2016. Disponível  em: <http://chronicle.com/article/Paper-Praising-Creator-/235610>. Acesso em 07 mar 2016.

3. KOTACK. Madison.  A Science Journal Invokes ‘the Creator,’ and Science Pushes Back. Wired,  March 03, 2016. Disponível em: <http://www.wired.com/2016/03/science-journal-invokes-creator-science-pushes-back/>. Acesso em 07 Mar. 2016.               

4. McCOOK, Alison. Hands are the “proper design by the Creator,” PLOS ONE paper suggests. Retraction Watch, March 02, 2016 [Updated March 03, 2016]. Disponível em: <http://retractionwatch.com/2016/03/02/hands-are-the-proper-design-by-the-creator-plos-one-paper-suggests/>. Acesso em 07 Mar. 2016.

5. MYERS, P. Z. Correcting errors is now anti-religious bigotry? Pharyngula Blog, March 4, 2016. Disponível em: http://freethoughtblogs.com/pharyngula/2016/03/04/correcting-errors-is-now-anti-religious-bigotry/. Acesso em 08 mar. 2016.

6. BOLLEN, Johan; VAN DE SOMPEL, Herbert; HAGBERG; Aric;  CHUTE, Ryan. A principal component analysis of 39 scientific impact measures.  PLOS ONE, v. 4, e6022, 2009. Disponível em: <http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0006022>. Acesso em 07 Mar. 2016.

7. FENNER, Martin. What Can Article-Level Metrics Do for You? PLOS Biology, v. 11, n. 10, e1001687, 2013. Disponível em: <http://journals.plos.org/plosbiology/article?id=10.1371/journal.pbio.1001687>. Acesso em 07 Mar. 2016.

8. CRESSEY, Daniel. Paper that says human hand was ‘designed by Creator’ sparks concern. Nature, March 03, 2016. Disponível em: <http://www.nature.com/news/paper-that-says-human-hand-was-designed-by-creator-sparks-concern-1.19499>. Acesso em 07 Mar. 2016.

9. PLOS ONE. Wikipédia. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/PLOS_ONE>. Acesso em 04/7 Mar. 2016.

10. PLoS-1 published a “creationist” paper: some thoughts on what followed. Byte Size Biology blog, March 4, 2016. Disponível em:   <http://bytesizebio.net/2016/03/04/plos-1-published-a-creationist-paper-some-thoughts-on-what-followed/>. Acesso em: 08 Mar. 2016.

Como citar este post [ABNT/NBR 6023/2002]:

FAUSTO, Sibele de. Polêmica PLOS expõe intolerância ao acesso aberto.  2016. Disponível em: <http://www.sibi.usp.br/?p=4968> Acesso em: DD mês. AAAA.