Gestão de Dados de Pesquisa: o que os Bibliotecários (e as Bibliotecas) têm a ver com isso?

SIBiUSP 2018

O gerenciamento de dados de pesquisa é um desafio emergente tanto para as universidades quanto para seus pesquisadores e bibliotecários. Para muitas instituições, responder a esse desafio é imperativo e imediato. Entretanto, como isso se traduz em um serviço a ser prestado?

Segundo a OCLC [1], em sua série de Relatórios sobre a gestão de dados de pesquisa intitulada The Realities of Research Data Management, o pacote de serviços de gestão de dados de pesquisa inclui: educação, expertise e curadoria (Figura 1), gerenciados pelas bibliotecas e trabalhados em parceria com outros setores da universidade. Entende-se que tais serviços incluem aqueles que foram construídos, hospedados e implantados localmente, e também serviços prestados externamente, para os quais a universidade organiza o acesso a pesquisadores afiliados.

Figura 1: Serviços relacionados à Gestão de Dados de Pesquisa

Nesse contexto, observa-se que, à medida que os bibliotecários se envolvem cada vez mais com o apoio aos pesquisadores, assumem atividades de assistência na condução de diversas etapas da comunicação científica, incluindo a gestão de dados de pesquisa. A literatura [1], [2], [3], [4], [5], [6], [7] sugere que diversas atividades podem ser desenvolvidas pelas bibliotecas e suas equipes.

De fato, a OCLC [1], enfatiza textualmente o papel das bibliotecas na prestação de serviços de gestão de dados de pesquisa aos pesquisadores:

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Colocamos especial ênfase no papel da biblioteca acadêmica no apoio
aos objetivos institucionais da gestão de dados de pesquisa, dado que
esse é um tema de especial interesse para a nossa organização e seus membros
(OCLC, 2017, p.10).

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Na atualidade, a atuação do bibliotecário no apoio ao pesquisador já é uma realidade em muitas universidades. Hoje, os bibliotecários oferecem suporte à realização de revisões de literatura, capacitam no uso dos recursos e fontes científicas de informação, treinam os usuários para a utilização de gerenciadores de referências e citações, fornecem orientações para a seleção de revistas para publicação, auxiliam na formatação de trabalhos acadêmicos, orientam a formatação de referências e citações, esclarecem sobre a política de acesso aberto, licenças e direitos autorais, instruem o depósito da produção intelectual em repositórios, realizam levantamentos e análises bibliométricas, esclarecendo sobre métricas e indicadores, orientam o uso de identificadores digitais e a manutenção de perfis de pesquisadores, etc. Diante de tantos serviços prestados, fornecer apoio na gestão de dados de pesquisa parece ser um pequeno passo adiante. No exterior, isso já acontece. Há diversas iniciativas relacionadas às bibliotecas e aos bibliotecários, que prestam serviços de apoio aos pesquisadores, fornecendo acesso a dados de pesquisa, serviços de curadoria, armazenamento e preservação de dados de pesquisa.

Uma busca rápida na internet revela que, em geral, os serviços de gestão de dados de pesquisa são gerenciados pelas bibliotecas, em conjunto com equipes de informática e em estreita relação com setores chave da universidade como as pró-reitorias de pesquisa. É o caso, por exemplo, da University of Illinois at Urbana Champaign, nos Estados Unidos (Figura 2), mas há diversos exemplos, disponíveis: Monash University (Austrália), The University of Edinburg (Reino Unido),  Duke University (Estados Unidos), University of Ottawa (Canadá), MIT (Estados Unidos), para citar apenas alguns.

 

Figura 2: Serviços de Dados de Pesquisa prestados pela Biblioteca da University of Illinois at Urbana Champaign (EUA)

Por outro lado, ainda que se observe uma tendência geral nessa direção, nem sempre a biblioteca e o bibliotecário mantêm parcerias próximas com os setores que conduzem as atividades de pesquisa da instituição. A origem desse distanciamento ainda não foi claramente determinada. Há quem entenda que o bibliotecário e a biblioteca devam restringir-se às suas funções técnicas, permanecendo como entidades de suporte passivo, de prontidão para o atendimento de alguma necessidade eventual, uma visão que está, aos poucos, sendo superada. Pode ser também que alguns acreditem que teriam dificuldades em compreender os processos envolvidos. Entretanto, os bibliotecários são profissionais talhados para exercer as funções primordiais de organização, orientação, auxílio e acompanhamento dos processos de busca e uso da informação.

Mas, quais seriam as competências do bibliotecário e da biblioteca quando falamos em serviços de gestão de dados de pesquisa? Em 2016, uma força tarefa da Confederação de Repositórios de Acesso Aberto (COAR) publicou o documento Librarians’ Competencies Profile for Research Data Management, que definiu as atribuições da biblioteca na gestão de dados de pesquisa, resumidas em três categorias de serviços: (1) prover o acesso aos dados de pesquisa, (2) apoiar os pesquisadores e alunos na gestão de dados de pesquisa, e (3) gerenciar as coleções de dados de pesquisa. Sendo assim, por onde começar?

1º) Aprimore seu próprios conhecimentos sobre a gestão de dados de pesquisa

É importante dedicar tempo para conhecer a organização social da pesquisa (atores, áreas de conhecimento e processos), as atividades e a natureza dos dados de pesquisa. Inicialmente, é fundamental saber o que é dado de pesquisa, o que incluir na documentação de dados, como elaborar um plano de gestão de dados de pesquisa, o que são repositórios de dados de pesquisa, como fazer a curadoria de dados, quais são as ferramentas apropriadas.

== Cursos e Materiais Online ==

Diversas instituições do exterior oferecem cursos online gratuitos sobre a gestão de dados de pesquisa. O website RDM Training for Librarians, mantido pelo The Digital Curation Centre (DCC), apresenta uma lista de cursos online sobre o tema. Abaixo, seguem alguns destaques:

  • RDMRose, disponibiliza materiais de aprendizagem de desenvolvimento profissional contínuo em gerenciamento de dados de pesquisa adaptados aos profissionais da Informação.
  • MANTRA – fornece módulos de aprendizado organizados a partir de slides, tarefas e atividades que abordam a gestão de dados de pesquisa, proteção de dados, metadados, além de questões políticas e éticas.
  • MIT Libraries Research Data Management Workshop Slides oferece materiais, orientações e estratégias concretas para a gestão de dados de pesquisa, incluindo a indicação de ferramentas, opções de armazenamento e compartilhamento, controle de versões, e auxílio ao pesquisador com relação às publicações científicas.
  • FOSTER – The Horizon2020 – oferece diversos cursos e materiais online gratuitos sobre ciência aberta e sobre a gestão de dados de pesquisa.
  • Gestão de Dados de Pesquisa: os princípios FAIR e as estratégias institucionais – slides do Workshop de Gestão de Dados de Pesquisa – CONFOA 2017.

== Guias ==

Há diversos guias disponíveis na Internet sobre como fazer (How-To-Guides), ferramentas para a elaboração de Planos de Gestão de Dados (Data Management Plans). guias de bibliotecas – LibGuides – que auxiliam no aprendizado da gestão de dados de pesquisa: LibGuide da Universidade de Southampton, Guia da Universidade de Leicester, LibGuide da Universidade Nacional de Singapura. Guia da Universidade de Cambridge, A Fapesp também disponibilizou orientações sobre a gestão de dados de pesquisa.

Em português, temos o Guia de dados de pesquisa para bibliotecários e pesquisadores. dos pesquisadores do CIN/CNEN, Sayão e Sales. Outra fonte de informações que pode ser útil é a página sobre Gestão de Dados Científicos da Rede Brasileira de Serviços de Preservação Digital – Rede Cariniana do Ministério de Ciência,Tecnologia, Inovações e Comunicações, que traz uma lista comentada de artigos e teses sobre o tema. Aliás, sobre o Arquivamento de Dados de Pesquisa, consta que o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) lançará nos próximos meses, um sistema de informação de dados sobre a produção científica desenvolvida por pesquisadores brasileiros. O espaço armazenará e distribuirá, de modo seguro, estudos e pesquisas relevantes para o desenvolvimento intelectual do Brasil.

O IBICT integra a rede Dataverse – plataforma de repositório de dados de pesquisa desenvolvida pela Harvard University. Com a demanda de uso do sistema por projetos de pesquisa institucionais, a Rede Cariniana sugeriu a criação da Rede Brasileira de Repositórios Dataverse, a qual terá um Comitê Técnico Científico para auxiliar na tomada de decisões e na sua regulamentação. No dia 25 de agosto de 2017 realizou-se a 4ª Reunião Técnica da Rede Brasileira de Repositórios Dataverse em Brasília, DF. O Repositório Dataverse da Cariniana está disponível em: http://repositoriopesquisas.ibict.br

Outra ferramenta interessante é o DataQ, lançado pela Association of College & Research Libraries (ACRL), uma plataforma colaborativa para responder questões sobre Dados de Pesquisa em Bibliotecas Acadêmicas. Basta enviar uma pergunta que um grupo de especialistas irá analisá-la, publicando a resposta no web site.

== Leituras ==

Outras matérias em português incluem Plano de Gestão de Dados : uma introdução de Pascal Aventurier, a matéria sobre Gestão de Dados e o uso da ferramenta DMP Online, compatível com o Programa H2020 (disponível no RCAAP), ou mesmo o interessante artigo Gestão de Dados de Pesquisa no contexto da e-science, dos pesquisadores Bertin, Visoli e Drucker da Embrapa, além do artigo Gestão de dados de pesquisa: um panorama da atuação da União Europeia, de Cavalcanti e Sales, ou ainda o artigo Algumas considerações sobre os repositórios digitais de dados de pesquisa, de Sayão e Sales. Com relação aos aspectos operacionais, é importante considerar procedimentos e sugestões contidas na matéria “Gestão de dados de pesquisa: o que precisamos saber hoje!“, recentemente publicada no website do SIBiUSP. 

== Eventos ==

É importante saber também que estão disponíveis os slides das apresentações das palestras realizadas em setembro de 2017 na UFSC durante o I Seminário de Suporte à Pesquisa e Gestão de Dados Científicos, que teve como objetivo reunir práticas existentes de apoio à pesquisa, gestão de dados de pesquisa e os desafios para implementação de serviços dessa natureza no Brasil. Também as Apresentações do Workshop – Gestão de Dados de Pesquisa: os princípios FAIR e as estratégias institucionais, realizado em outubro de 2017 na Universidade do Minho, Portugal, estão disponíveis. Ou ainda o material dos Fóruns de Gestão de Dados de Investigação (Fórum GDI), que já prepara sua terceira edição, em Lisboa, Portugal, com o objetivo fornecer suporte à gestão de dados de investigação com o intuito de desenvolver competências técnicas e capitalizar saberes e práticas.

Em abril de 2018 acontece no Rio de Janeiro (RJ) o Latin America and the Caribbean Scientific Data Management Workshop (Encontro Latino-Americano e Caribenho de Gestão de Dados Científicos), evento gratuito promovido pelo Museu do Amanhã em parceria com diversos organismos científicos como a Academia Brasileira de Ciência e o World Data System – um braço do Conselho Internacional de Ciências (ICSU) para acreditação de sistemas de dados científicos -, entre várias outras instituições. Temas que serão abordados incluem novas tendências e perspectivas futuras para projetos de dados científicos, iniciativas globais de dados científicos, contexto e experiências de dados científicos da América Latina e do Caribe, integração e constituição de plataformas compartilhadas para gerenciamento de dados de pesquisa, entre outros tópicos.

2º) Apoie a gestão de dados de pesquisa

Para apoiar a gestão de dados de pesquisa, podemos:

  • fomentar campanhas de conscientização sobre a importância da gestão adequada dos dados de pesquisa,
  • promover a capacitação para o desenvolvimento da competência em gestão de dados de pesquisa (research data literacy),
  • apoiar a adoção de práticas de gestão de dados de pesquisa em parceria com departamentos, grupos de pesquisa, comissões, etc.,
  • indicar repositórios temáticos de dados de pesquisa confiáveis,
  • orientar a organização de arquivos de dados e o uso de ferramentas de gestão de dados de pesquisa,
  • disseminar boas práticas de pesquisa,
  • fornecer auxílio na documentação de conjuntos de dados (definições, metodologia de coleta, etc).,
  • revisar documentação de dados dos estudantes,
  • auxiliar na elaboração de planos de gestão de dados,
  • criar e oferecer tutoriais sobre a elaboração de planos de gestão de dados,
  • prospectar atividades desenvolvidas na instituição,
  • criar e manter um serviço de arquivo e um serviço de descoberta de dados,
  • informar que todo arquivo de dados deve obedecer aos princípios FAIR,
  • gerenciar sistemas de armazenamento de dados,
  • informar que todo arquivo de dados publicado deve possuir um identificador digital (ex. DOI),
  • propor diretrizes e políticas de gestão de dados com base em práticas reconhecidas e apoiadas pelos pesquisadores.

3º) Colabore para o desenvolvimento de uma política institucional

Um dos pilares do sucesso na gestão institucional de dados de pesquisa é enfatizar o encorajamento, em vez do mandato, por meio da adoção de procedimentos internos simplificados. Para muitas universidades, o gerenciamento efetivo de dados de pesquisa requer uma política formal de apoio e orientação. As políticas são implementadas de forma diferente de acordo com as necessidades locais e aquilo que a universidade aspira. 

Exemplos de políticas adotadas por universidades do Reino Unido podem ser úteis, se você está criando uma nova política de gestão de dados de pesquisa (Research Data Management – RDM) ou revisando a política existente. Consulte então a Lista de Políticas de Gestão de Dados de Pesquisa por data – UK Universities. Para uma visão geral e uma comparação mais amplas dos elementos das políticas, veja a Tabela 2 – Elementos das Políticas de Gestão de Dados de Pesquisa – UK Universities Elements.

No Brasil, temos o Manifesto de acesso aberto aos dados de pesquisa publicado pelo IBICT. A tese de Maíra M. Costa sobre as Diretrizes para uma política de gestão de dados científicos no Brasil, também pode ser útil. A universidade em conjunto com as bibliotecas deve definir que tipo de dado será armazenado

  • bruto ou final, publicado
  • dados observacionais, experimentais ou computacionais

== REFERÊNCIAS ==

[1] ONLINE COMPUTER LIBRARY CENTER. OCLC. The Realities of Research Data Management. 2017 – compõe uma série de quatro partes que explora a forma como as universidades de pesquisa abordam o desafio de gerenciar dados de pesquisa ao longo do ciclo de vida da pesquisa. Nesta série, examina-se o contexto, as influências e as escolhas que as instituições de ensino superior enfrentam na construção ou aquisição de capacidade RDM – em outras palavras, a infra-estrutura, os serviços e outros recursos necessários para suportar novas práticas de gerenciamento de dados. As descobertas são baseadas em estudos de caso de quatro instituições: Universidade de Edimburgo (Reino Unido), Universidade de Illinois em Urbana-Champaign (EUA), Monash University (Austrália) e Wageningen University & Research (Países Baixos), em quatro países com contextos muito diferentes. Disponível em: < http://www.oclc.org/research/publications/2017/oclcresearch-research-data-management.html > Acesso em: 19 dez. 2017.

[2] COX, A.; VERBAAN, E.; SEN, B. Upskilling liaison librarians for Research Data Management. Ariadne, n. 70, Nov. 2012. Disponível em< http://www.ariadne.ac.uk/issue70/cox-et-al?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=upskilling-liaison-librarians-for-research-data-management-2 > Acesso em: 19 dez. 2017.

[3] COX, AM ; PINFIELD, S. Research data management and libraries: Current activities and future priorities. Journal of Librarianship and Information Science, v. 46, n.4, p. 299-–316, 2014 (First published in 2013). Disponível em: < http://eprints.whiterose.ac.uk/76107/7/WRRO_76107.pdf > Acesso em: 19 dez. 2017.

[4] LYON, L. The Informatics Transform: Re-Engineering Libraries for the Data Decade. The International Journal of Digital Curation, v.7, n.1, 2012. Disponível em: < http://www.ijdc.net/index.php/ijdc/article/view/210 > Acesso em: 19 dez. 2017.

[5] BERTIN, P.R.B.; VISOLI, M.C.; DRUCKER, D.P. A gestão de dados de pesquisa no contexto da e-science: benefícios, desafios e oportunidades para organizações de P&D. PontodeAcesso, Salvador, v.11, n.2, p. 34-48, agosto 2017. Disponível em: < https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/168396/1/A-gestao-de-dados-de-pesquisa….pdf > Acesso em: 20 dez. 2017.

[6] SAYÃO, L.F.; SALES, L.F. Guia de dados de pesquisa para bibliotecários e pesquisadores. Rio de Janeiro: CNEN/IEN, 2015. Disponível em: < http://carpedien.ien.gov.br/bitstream/ien/1624/1/GUIA_DE_DADOS_DE_PESQUISA.pdf > Acesso em: 19 dez. 2017.

[7] SILVA, F.C.C. O papel do bibliotecário na gestão de dados de pesquisa. RDBCI, v.14, n.3, 2016. Disponível em: < https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/rdbci/article/view/8646333> Acesso em: 06 jan. 2018.

Como citar este post [ABNT/NBR 6023/2002]:

DUDZIAK, Elisabeth A. Gestão de Dados de Pesquisa: o que os Bibliotecários (e as Bibliotecas) têm a ver com isso? 2018. Disponível em: <https://www.sibi.usp.br/?p=18600> Acesso em: DD mês. AAAA

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